A derrota do humano
Há um conflito crescente entre o movimento popular que democratiza a escrita e o instinto totalitário dos poderes.
Os diários podem ser relatos de acontecimentos, mas isso fazia mais sentido nos séculos passados, quando pouca gente lia. Há diários escritos por pessoas comuns, que deixam claro o que pensavam os contemporâneos de cada época, existem também os mais íntimos, que só cada um pode escrever, mas que caem facilmente no pretensioso: ninguém é tão sincero que não minta um bocadinho sobre os seus sentimentos, ninguém é tão sincero a ponto de presumir que os seus textos jamais terão leitores e, por isso, não existe ali a autenticidade absoluta do pensamento e devemos perdoar certas cedências à posteridade, aos costumes e aos amigos.
Se muitas pessoas escreviam diários, o facto é que era quase impossível publicá-los. Isso mudou. As redes sociais proporcionaram uma libertação da escrita sem precedentes, que continua a reforçar-se em redes como esta. Os relatos pessoais misturam-se cada vez mais com projetos artísticos, numa curiosa amálgama de formas, da crónica à ficção, tudo ao alcance de cada utilizador. A inteligência artificial deve aumentar as possibilidades deste movimento popular, que possui certos elementos de anarquia e outros de democracia. As opiniões já não são exclusivo das castas superiores, os mitos sobre a desinformação ou sobre os horrores das más ideias à solta são apenas resistência de privilegiados.
Em fio de ideias, refletia sobre o carácter premonitório destes diários e da arte em geral. Os melhores livros antecipam de maneira inconsciente as grandes verdades do futuro. O mecanismo não tem explicação. Kafka imaginou um romance que foi vivido por muita gente anos depois de ter sido escrito, durante o Holocausto e o terror estalinista, vivido por pessoas que não sabiam o crime de que eram acusadas, incapazes de compreender que não era obrigatório terem praticado um crime para serem culpadas. Algumas vítimas, sem dúvida, terão recordado nos seus últimos instantes aquele estranho romance com título O Processo, que afinal não era fantasia, mas um texto realista, até o relato exato das suas próprias desgraças. Hoje, muitos sofrem nas mesmas condições, sem saberem do que são culpados.
Na mesma lógica, tendo em conta que o essencial da nossa arte é bizarramente pessimista, arte sombria, obcecada pela decadência da civilização, é seguro dizer que uma das nossas hipóteses é um futuro de colapso. A dissolução das democracias é já uma possibilidade e tudo na economia parece insustentável. Na ordem intoxicada em que vivemos, o desastre está ao virar da esquina. A arte contemporânea pressente a decadência e a dissolução da sociedade, a nossa época é egocêntrica, mas os artistas insistem na ideia da desvalorização do indivíduo e do seu esmagamento pelas circunstâncias. Vivemos no tempo da potencial derrota do humano. O nosso futuro, provavelmente, terá por um lado a democratização das artes e, por outro, uma política tendencialmente totalitária, a procurar o controlo absoluto do pensamento. Se tiver de apostar num vencedor, escolho o primeiro, mas o tempo vai acumulando nuvens de tempestade no horizonte.
imagem gerada por IA, Gemini

