Existe um divórcio crescente entre o público e os meios de comunicação. Talvez seja um fenómeno antigo, mas nos últimos dez anos assumiu proporções doentias. O desfasamento entre vida real e vida publicada reflete o afastamento entre elites e povo, perigosa tendência que está a partir a política e a dividir a sociedade em castas inflexíveis. As diferenças de rendimento são intransponíveis, o elevador social parou nos andares inferiores (só funcionam os elevadores a partir do meio do edifício). A política degradou-se e já não há estadistas, apenas carreiras. Os meios de comunicação são controlados por interesses alheios à opinião pública e dedicam-se à omissão e engano.
Estamos na época da fragmentação da realidade. Tudo é difícil de interpretar, pois está envolvido por um nevoeiro de informações manipuladas. Os intelectuais que outrora faziam o trabalho de revelar a teia de factos que conduz o mundo foram silenciados nas universidades e afastados dos jornais onde escreviam. O desaparecimento desses intelectuais que interpretavam a realidade é uma circunstância útil para o complexo burocrático, mediático e securitário que nos governa. Por isso, assistimos ao triunfo dos homens triviais que dizem banalidades nas academias e nas televisões ou que são escolhidos por partidos medíocres para ocuparem os lugares de eleitos.
Isto também é nítido nas artes, invadidas pelos bárbaros do conformismo. Alguns clássicos da literatura, por exemplo, hoje não passariam no crivo das editoras e se, por milagre, sobrevivessem a essa prova, seriam enterrados na última estante da feira das bagatelas, tornados invisíveis à nascença. A cultura está em extinção, nem há dinheiro para esses luxos: temos música toda igual, filmes imbecis, livros previsíveis.
Como pode evoluir a fragmentação? Nas democracias, os eleitores já se cansam de partidos que não resolvem nenhum problema, o capitalismo entrou na via insustentável de criar um abismo entre ricos e pobres, as tecnologias vão destruir milhões de empregos e há indícios de alta instabilidade financeira. A corrida aos armamentos ameaça destruir o estado social e as liberdades começam a ser olhadas pelo poder com desconfiança, tal como aconteceu aos intelectuais entretanto varridos do mapa.
imagem gerada por IA, Gemini

