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Nos tempos em que não havia liberdade de imprensa, a crónica de jornal era muito apreciada. A prosa mais elaborada permitia incluir mensagens codificadas que os leitores se deleitavam a descobrir e decifrar. Perante a impossibilidade de dizer abertamente as coisas, os autores precisavam de sofisticar a linguagem, contornado dessa forma os tabus da sua sociedade, criando biombos que dificultavam a leitura e que ocultavam o essencial da mensagem. Nos anos 60 e 70, floresceu nos jornais uma tradição de crónica que a liberdade de imprensa acabou por comprometer. A crónica tinha nesse tempo um carácter de válvula de escape, era muito literária e obscura, com forte subtileza a esconder o conteúdo político e social dos textos. (…) Os leitores de hoje preferem a notícia, a reportagem ou a opinião. Para um jornalista contemporâneo, não faz sentido evitar a sinceridade total da mensagem, pois deixou de ser necessário fintar a censura. Os jornais também dispensam textos demasiado elaborados e literários, difíceis de ler, pois os compradores não têm tempo disponível, não entendem a ironia e rejeitam o excesso de subtilezas. As pessoas preferem informação e recusam o que seja difícil ou menos claro. No auge do antigo regime, a literatura seguiu um caminho paralelo ao do jornalismo, tornando-se cada vez mais enigmática e experimental. Os autores preferiam a elaboração da linguagem e a mensagem codificada. Com a liberdade, o romance português divergiu do jornalismo. Embora os autores pudessem dizer tudo, não deixaram de preferir o experimentalismo e a exploração da intimidade, em estilos densos, por vezes impenetráveis. Curiosamente, a simplicidade na literatura é combatida, desvalorizada como “escrita jornalística”.
Este texto foi escrito em dezembro de 2014, imagem gerada por IA, Gemini.

