Há períodos em que a economia, a política e a cultura se arrastam num pântano de falta de ideias. Vivemos numa dessas épocas marcadas pelo espetáculo do vazio e pelo capitalismo desenfreado que só pensa no valor acionista imediato. As sociedades avançadas estão em fase de apodrecimento, incapazes de responder às legiões de descontentes, à gente humilhada em sucessivas vagas de desindustrialização, às vítimas da compressão do estado social, cuja existência reduzia o fosso entre ricos e pobres. Além disso, está tudo a mudar depressa, sobretudo o equilíbrio de poderes imperiais e o tsunami tecnológico, que contém promessas, mas igualmente ameaças. Nos próximos anos, os empregos destruídos pelas novas tecnologias serão os de pessoas mais qualificadas. A substituição do topo só aconteceu em revoluções. Que efeitos terá esse processo inédito de lançar para o desemprego os mais bem pagos do mercado de trabalho? E como se vai manter o estado social? Contestadas pelos seus eleitores, as oligarquias tentam resistir onde podem, mas já não existem dúvidas sobre os seus abusos de poder, a manipulação da informação e a cultura de impunidade. A opinião pública também perdeu a paciência com os políticos banais que se arrastam na mediocridade dos partidos, por isso estamos talvez a entrar no inverno das democracias ou, no mínimo, a sua fragmentação. Termina assim o curto ciclo de hegemonia americana e de globalização acelerada (a fase chamada neo-liberal, que durou 40 anos). O império americano atascou-se em guerras perdidas e tem divisões internas insanáveis. A Europa já deixou de contar, não passa de uma vaga aliança de países vassalos da América. O declínio do ocidente (tão nítido nas artes) será penoso, haverá menos dinheiro para as ciências e para a cultura, mais atenção às burocracias, as derradeiras trincheiras do poder tecnocrático. Os donos do poder, encurralados, tentarão resistir à revolta das massas, distraindo-as com fogo-de-artifício.
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