Mulher no café
Observação da cidade, a deambulação.
21 de novembro de 2014
Um cheiro indefinido e doce, que mistura canela e talvez rosmaninho, fez emergir memórias antigas. Caminho por uma rua suburbana, é fim de tarde e há um vento forte que me faz olhar para a glória transparente do céu, onde flutuam nuvens e uma luz de cristal. Vai chover. A memória dissipa-se e sinto outros odores, também imprecisos e que me distraem, enquanto vejo, sem querer, através da grande vitrina, a mulher sentada no interior do café. Os reflexos do vidro produzem um véu que a torna pálida e, nessa imagem, estou eu a olhar para ela e, depois, olho para mim. Poderia encontrá-la daqui a um ano e não a reconheceria. Posso ter-me cruzado com esta mulher há um ano, mas se isso aconteceu não me lembro. Não é especialmente bonita, embora o pensar distraído a faça atraente. Cabelo normal, corpo magro. A expressão absorta parece resultar de alguma recordação feliz, mas não sei bem o que é isso da felicidade, porventura apenas o momento, quando a restante existência fica em suspenso, repetindo uma pequena parcela até quase ao infinito. A desconhecida observa a rua através da janela do café barulhento, procura o indefinido além do horizonte. Em que estará a pensar? Numa impressão despertada por algum perfume, talvez a mesma ideia que me ocorre, que inclui uma canção trivial e a rua de subúrbios onde eu caminhava. Gostava de meter conversa, de a conhecer, mas isso não é possível. No espelho onde vemos os outros, procuramos primeiro a nossa própria imagem. Que desejava eu saber dela? Um bocadinho mais do que nada e tudo o resto que ela tem igual a mim.
Velha crónica, imagem gerada por IA, Gemini.


Simples, claro e não precisa de mais!